Eu perdia tempo, acalmava o frio indeciso de minhas mãos escondendo-as no bolso do casaco. Eu sempre pensei que era o máximo da existência humana poder andar no meu próprio ritmo pela cidade com as mãos descansando nas frestas da minha roupa.
Os braços acompanhando o gingado dos meus passos em aceleração e frenagem, tanto faz. Perdendo a virgindade pra solidão dividindo-a com o casaco. A única proteção para os dias frios. Como eu era boba.
Eu acreditava na liberdade da dança de mãos solitárias. Girando no ar, acompanhando a música que nem tocava. Gesticular quando eu quisesse sempre pronta pra cumprimentar algum conhecido que por ali passava. Eu era livre, de mãos nos bolsos ou bailando no ar. Era uma sensação tão feliz. Como eu era boba.
A real liberdade das mãos é ficar entrelaçada entre seus dedos. Acho que é mais ou menos isso que o poeta queria dizer com estar-se preso por vontade. É sentir seus batimentos cardíacos pulsando nos meus. A palma da mão roçando nas suas unhas recém-pintadas. Esquentar as extremidades, e o calor logo se espalha em metástase pelo resto do corpo, terminando seu circuito em um sorriso em erupção. Então, eu paro no meio da rua para roubar-te um beijo. As minhas mãos foram feitas para as suas, um encaixe desajeitadamente perfeito como luvas usadas para tirar comida do forno.
Não quero proteção para o frio, apenas proteger você de todos os perigos do mundo. Caminhas no seu ritmo, fingindo ser o mais cômodo pra depois me acostumar. Descuidar das palavras e me aborrecer com o silêncio dos pássaros verdes no caminho.
Desviar dos problemas, pessoas e postes sem nos soltar. Como gêmeos siameses. Só quem passeia de mãos dadas pode discutir felicidade, pois sabe o que é. Nessa hora, todos os enigmas do mundo parecem ter solução. Não é preciso fila de pão ou status em redes sociais para saber o quanto a gente se ama, basta observar como nossas mãos se procuram por baixo ou ate mesmo por cima da mesa.
Priscilla Campos